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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - O carrinho da espiritualidade


Nossa discussão de hoje é sobre os movimentos possíveis que a espiritualidade pode assumir em recuperação. São dois: para cima ou para baixo, para frente ou para trás, crescer ou diminuir, subir ou cair, progredir ou regredir. Podemos defini-los da maneira que acharmos melhor, mas são apenas dois.

O estado espiritual pode ser comparado a um carrinho de controle remoto em um tipo de rampa considerável ascendente em que podemos controlar sua aceleração. Para que o carrinho inicie e continue a subida, é preciso uma aceleração adequada. Se for insuficiente, é provável que ele desça a rampa, podendo inclusive virar e quebrar.

Podemos destacar, principalmente, dois comportamentos diretamente relacionados ao crescimento espiritual e à relativa ausência de espiritualidade. Respectivamente, são eles: a vigilância e a complacência.

A vigilância consiste na admissão diária de nossas impotências, aceitação da recuperação como condição para uma nova maneira de viver, observação dos princípios espirituais, freqüência às reuniões e/ou sessões com um profissional, auto-avaliação constante, manutenção mental, entre outros.

Segundo as experiências de muitos companheiros em recuperação, “os bons momentos também podem ser uma armadilha”. É natural que a partir da abstinência, a prática dos princípios da recuperação apresente como resultados e/ou incentive-nos a buscar, por exemplo, crescimento pessoal, qualificação profissional, reaproximação com a família, relacionamentos, novos amigos, outras atividades sociais e a necessidade de equilibrar estes papéis e tarefas diárias concorra para a definição de prioridades. Não podemos esquecer que a recuperação é o compromisso mais importante para nossas vidas porque sem ela nenhum dos benefícios indiretos e/ou sociais da recuperação será possível.

A complacência, por outro lado, pode ser entendida como o oposto. Ou seja, o retorno aos padrões negativos e destrutivos da ativa como, por exemplo, a independência na medida em que podemos acreditar que não precisamos mais da disciplina da recuperação, o orgulho na medida em que voltamos a acreditar que um simples pedido de ajuda em alguma dificuldade pode representar nosso fracasso, egoísmo, ingratidão, insatisfação, desconfiança, má vontade, competição, interesses mesquinhos, entre outros.

Segundo a Prevenção de Recaída (PR), alguns comportamentos servem como indicadores de atitudes negativas e de um possível processo de recaída. Na mesma linha, a literatura de Narcóticos Anônimos (NA) lembra que atitudes negativas são como fumaça indicando que há fogo. Neste momento, devemos lembrar-nos de nosso passado e, mesmo que por alguns, instantes, sentir como era estar em um estado de vazio espiritual e as conseqüências desta ausência de espiritualidade.

Por fim, a recuperação é um presente muito desejado de nosso Poder Superior. Caso pretendamos mantê-la, é necessário que cuidemos muito bem dela, procurando sempre o desenvolvimento espiritual.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - A recuperação enguiçou


O tema de hoje é o sentimento negativo e geralmente equivocado de que nossa recuperação estacionou.

Durante a ativa, entre muitas outras, uma das características comuns a todos os dependentes químicos é a impaciência ou ausência de paciência motivada pelo imediatismo. A inobservância daquele princípio influenciou, em grande medida, nossos comportamentos e nossas vidas de forma geral.

Quando conseguíamos algum emprego, esperar por adquirir experiência, aprender as particularidades da organização, se qualificar, entre outros, era muito desconfortante levando-nos, muitas vezes, a procurar outro emprego motivados pela idéia de que não éramos reconhecidos.

Para agradar nosso ego, satisfazer nossa procura incessante por prazer e chamar a atenção das outras pessoas, procurávamos um relacionamento com alguém que, em razão de algum atributo como beleza, dinheiro, bens, entre outros, nos oferecesse um hipotético status social. Entretanto nossa impaciência se incomodava com a arte da conquista fazendo com que muitas vezes pagássemos por prazer e companhia.

De forma geral, os esforços eram pesadelos, lembrando também do papel que possuem em personalidades de código mental fixo ou permanente. Tínhamos uma grande dificuldade em aceitar o processo natural de crescimento e desenvolvimento característico da natureza, mas que se observa em todas as áreas de nossas vidas.

Quando decidimos entrar em recuperação, geralmente acreditamos que a simples abstinência de álcool e outras drogas tornariam nossas vidas perfeitas de acordo com modelos que sempre criamos. Primeiro: não existem vidas perfeitas. Segundo: há que se observar a lei do processo natural, assim como a da semeadura ou colheita.

Usamos drogas durante muito tempo. Muitas foram as conseqüências físicas desta relação como, por exemplo, disfunções orgânicas e fisiológicas, mentais, entre outras. Por exemplo, é natural que dependentes químicos desenvolvam transtornos de ansiedade como patologias psíquicas. Quando ficamos abstinentes, esperamos que desapareçam imediatamente sem quaisquer tratamentos psicológicos.

Da mesma maneira, esperamos ser pessoas mais qualificadas com novos conhecimentos, princípios, personalidade, idéias, entre outros, sem qualquer manutenção do ponto de vista mental, sem leituras, estudo, entre outros.

Pensamos que sem a prática dos passos e/ou alguma outra ferramenta eficaz poderemos desenvolver nossa espiritualidade, esquecendo que o despertar espiritual é progressivo e contínuo.

Muitas vezes em atitudes ainda negativas na medida em que continuamos procurando aprovação e estabelecendo como condição para nossa felicidade e sucesso variáveis exteriores, acreditamos que a sociedade nos acolherá simplesmente em razão da abstinência.

Assim como ficamos decepcionados com a continuidade de nossas inabilidades emocionais, nossos pensamentos destrutivos, comportamentos inadequados e com demora para conquistar bens materiais que desejamos.

Tudo isto pode nos dar a impressão que nossa recuperação não está progredindo, em alguns casos até regredindo. Entretanto, se olharmos com honestidade para nosso passado e utilizarmos, por exemplo, a poderosa ferramenta da lista de gratidões, perceberemos que a recuperação tem nos dado, aos poucos, muito mais do que esperávamos.

Muitas vezes este tipo de sentimento pode ser resultante da complacência, alguma influência pontual como um erro, um sentimento negativo, expectativa não atendida, entre outros, que, de acordo com a percepção seletiva, nos faz acreditar que a recuperação não avançou, assim como a rotina, se não receber a atenção necessária no sentido, por exemplo, da realização de atividades menos rotineiras, mais criativas e que nos dê alguma satisfação, pode ter, também, um peso muito grande sobre este tipo de sensação.

Não podemos esquecer que a formação de nossa personalidade adictiva é resultado de um processo que levou muitos. Dependendo de sua idade, foram mais alguns ou muitos anos reproduzindo este tipo de padrão. Não faz sentido acreditar que sem trabalho, esforço, dedicação e recuperação seremos pessoas diferentes.

Por fim, a literatura de Narcóticos Anônimos (NA) lembra que “crescimento não é resultado de um desejo, é resultado de ação(...)”. Precisamos tomar a iniciativa, assumir responsabilidades e colocar este programa em prática.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Autolimitações


Nossa reflexão de hoje é sobre as várias limitações que impusemos a nós mesmos durante nossa adicção ativa.

Aprendemos que a qualidade de nossas vidas e o sucesso depende muito da visão que temos de nós mesmos. Já discutimos aqui que dependentes químicos tendem a desenvolver uma personalidade baseada no determinismo em oposição à autodeterminação. Como conseqüência, vivíamos tentando das mais variadas formas provar a nós mesmos que as qualidades que tínhamos eram suficientes para nos destacar em relação aos outros.

Assim, os desafios e os esforços de aprendizado eram ameaças a nossa auto-imagem. Notadamente com o tempo, nossas características se revelaram insuficientes porque ninguém consegue manter uma máscara durante muito tempo e, principalmente, as outras pessoas participavam do processo natural de desenvolvimento. Tínhamos a sensação de fracasso e se nossas características não poderiam mudar de acordo com o código mental fixo, não havia nada que pudéssemos fazer. Perdemos a autoconfiança. Abrimos mão de nossas escolhas. Como pensávamos, de fato nossos comportamentos passaram a ser resultados de condicionamentos e circunstâncias da vida.

Com isso, qualquer auto-avaliação era muito difícil. Com honestidade, era impossível. Pensávamos que seria doloroso demais descobrir quem éramos realmente. Começamos a criar idéias exacerbadamente limitadas em relação a nossas potencialidades no trabalho, na escola, enfim, a tudo que podíamos pensar em fazer. Auto-obsessivos e desconfiados, nossos medos nos cerceavam, nos impediam de viver.

Em razão do medo da autodescoberta, das experiências com as pessoas que nos relacionávamos e da projeção destas na sociedade de forma geral, também desenvolvemos uma ideia negativa, cética e desconfiada dos outros.

Este conjunto de idéias egocêntricas, destrutivas, exigentes e ineficazes influenciou nossa qualidade de vida que era péssima.

Mudar estas idéias seria muito difícil. Mas segundo a literatura de Narcóticos Anônimos (NA), “mais do que qualquer outra coisa, uma atitude de indiferença ou intolerância com os princípios espirituais irá derrotar nossa recuperação”. Assim como honestidade e boa vontade, o princípio da mente aberta, ou seja, a disposição irrestrita ou incondicional para aceitar novas idéias, idéias diferentes, é um princípio básico. Sem ele, não entramos em recuperação e ao fazê-lo continuamos no caminho da autodestruição, em oposição à vida. Não estamos transbordantes de mente aberta, mas precisamos começar a mudar. Também segundo a literatura, “uma nova ideia não pode ser enxertada numa mente fechada”. Mas precisamos de novas idéias.

As experiências de companheiros em recuperação apontam que simplesmente a freqüência às reuniões, a identificação com outros adictos e alguma boa vontade de forma geral são capazes de começar a abrir nossas mentes para novas idéias e experiências. Segundo Freud, “nunca tenha certeza de nada porque a sabedoria começa com a dúvida” e Einstein, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.

Com esta atitude positiva, começamos a superar nossas limitações na medida em que percebemos que outras pessoas que passaram por dificuldades parecidas assim conseguiram. Começamos a entender o papel da proatividade em nossas vidas, a acreditar que mesmo sofrendo influências genéticas, psíquicas e ambientais, entre o estímulo e a resposta há um espaço que é a liberdade de escolha. Começamos a acreditar que se outras pessoas conseguiram mudar suas vidas e agir diferentemente, também podemos. Começamos a identificar nos desafios e erros a possibilidade de aprendizado e crescimento. E por fim, ficamos menos resistentes aos apontamentos e críticas, reconhecendo neles uma importante ferramenta de ajuda no sentido de nos auxiliar a descobrir algo que precisamos mudar que sozinhos não conseguimos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Dificuldades nos Relacionamentos


Nosso tema de hoje é sobre as dificuldades que eventualmente encontramos em nossos relacionamentos cotidianos.

Durante nossa adicção ativa, tínhamos muito medo da rejeição. Em razão do nosso consumo de drogas, daquilo que a obsessão por drogas nos levou a fazer como, por exemplo, mentir, manipular, furtar, roubar, entre outros desvios de comportamento, pensávamos que se as pessoas nos conhecessem, imediatamente se afastariam.  Mesmo no caso de outros dependentes em recuperação, acreditávamos que nenhum deles fizera o que fizemos.

As experiências sociais que tínhamos, que geralmente se limitavam a usuários de drogas, traficantes, entre outros, bem como considerando as atitudes que costumávamos ter nos impediam de confiar nas outras pessoas.

Estes fatores nos levaram ao isolamento.

Com a abstinência e a recuperação, naturalmente começamos a nos reaproximar das pessoas. Em alguns relacionamentos como, por exemplo, no trabalho, no grupo, na escola, entre outros lugares, poderemos encontrar algumas dificuldades, alguns conflitos.

A primeira coisa que devemos fazer é um exercício de auto-avaliação, olhar para dentro de nós e procurar qual a parcela que temos em relação à qualidade do relacionamento.

Sabemos que mesmo em recuperação, é comum a criação de modelos perfeitos de nossa parte. Por exemplo, criamos modelos perfeitos de pais, mães, namorados, namoradas, amigos, de nós mesmos, inclusive de relacionamentos. Esses modelos incluem expectativas muito elevadas e irreais que geralmente são responsáveis por algumas de nossas frustrações e intolerâncias. Ressentimentos indicam a dificuldade para perdoar nós mesmos. Além de que pode acontecer que os comportamentos que mais estão nos incomodando nas outras pessoas sejam aqueles que não conseguimos nos livrar.

Feito isto, é fundamental a prática da empatia, que nos coloquemos no lugar dos outros. Nosso egocentrismo geralmente nos impede de preocupar-se com as outras pessoas. Temos a ideia de que os outros vivem em nossa função. Nós somos o centro e o restante, a periferia. Muitas vezes, a pessoa não está em um dia legal em virtude de forças que não possuem quaisquer relações conosco. Precisamos entender isto. Assim como, em outras situações, aceitar que como nós um dia, as pessoas estão trabalhando no sentido de remover seus defeitos.

A partir destas considerações, o que podemos fazer? A literatura de Narcóticos Anônimos (NA) lembra que não nos tornaremos pessoas melhores julgando os erros dos outros. Podemos orar pedindo ajuda ao Poder Superior e principalmente praticar o princípio do amor incondicional. Aplicando a regra de ouro, vamos tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados, independentemente que qualquer coisa. Procuraremos resolver os conflitos que surgirem e não usar um erro ou dificuldade para estereotipar alguém ou definir sua personalidade.

A partir do momento que decidirmos dispensar um tratamento mais amoroso aos outros, é este tipo de tratamento que receberemos. 

domingo, 12 de agosto de 2012

Sentimentos não são inimigos


Em razão de nossa inabilidade para lidar com sentimentos, é comum associarmos as emoções aos nossos adversários, obstáculos ou inimigos. Caso fosse possível, certamente muitas pessoas escolheriam não sentir.

Entretanto, uma corrente de médicos e psicólogos defende que algumas emoções que consideramos negativas como depressão, ansiedade, raiva, pessimismo, entre outras, são resultado de uma seleção natural, ou seja, elas continuam existindo porque oferecem vantagens aos seus portadores.

Eles comparam os sentimentos à mesma função que a dor tem em nossas vidas. Quando estamos na iminência de uma lesão durante alguma atividade física, nossos neurônios transmitem este estímulo para que paremos. Assim como a dor, as emoções nos fornecem informações que ajudarão a garantir nossa sobrevivência diante de riscos.

Por exemplo, a depressão, em oposição ao bom humor, serve para que voltemos atrás e pensemos melhor nossas opções em relação a algum objetivo. Ela abre espaço para a introspecção e autoexame necessários para tomar decisões difíceis, como desistir de objetivos inalcançáveis e buscar novas metas.

O mesmo acontece com outros sentimentos. São padrões de resposta diante de situações que podem trazer riscos ou oportunidades.

Por outro lado, o pesquisador Joseph Cardillo, em seu livro “Concentração: o segredo das pessoas produtivas”, escreveu sobre sua descoberta de que as emoções afetam nossa atenção inconscientemente porque nosso cérebro está preparado para salvar nossas vidas, respostas emocionais estão ligadas aos mecanismos primitivos de sobrevivência.

Sendo assim, nem sempre nossos sentimentos indicarão a melhor opção para a situação. Por exemplo, o medo imaginário ou irreal pode nos levar a comportamentos desesperados e desnecessários. É necessário submeter nossos pensamentos automáticos e esquemas de interpretação das informações exteriores à consciência.

Ele apresenta 4 estratégias para nos ajudar a descobrir o que as emoções querem nos dizer, quais suas causas e como tomar as melhores decisões. Cada estratégia consiste em um conjunto de perguntas que devemos responder:

Primeira Estratégia: Que emoção específica estou sentindo? Que informação “fria” estou recebendo? Há uma disjunção? Por quê? Sentir-me desta maneira afetou negativamente situações semelhantes no passado? Sentir-me desta maneira afetou positivamente situações semelhantes? Há coisas que faço melhor quando estou operando sob esta influência emocional? O quê? Há coisas que faço pior? Quais as minhas melhores opções para agir estando sob a influência do que estou sentindo? Escolha a melhor opção e vá em frente.

Segunda Estratégia (caso esteja em uma espiral depressiva): Como tais humores depressivos me afetaram em situações semelhantes no passado? Que coisas não estão fáceis? Diga a si mesmo que as coisas podem e irão mudar e não invista tanto em determinados assuntos. Que coisas se tornam mais fáceis por  meio destas alterações de humor? Escolha algo que faz bem sob a influência de alterações de humor e vá em frente.

Terceira Estratégia (quando emoções estiverem afetando pensamentos e ações): Que emoções positivas estou sentindo? Alguma destas emoções está afetando meus julgamentos? Qual delas? Como sentir-me desta maneira afetou situações semelhantes no passado? Como sentir-me desta maneira pode me afetar agora na medida em que persigo esta meta? Se o que estiver sentindo facilitar, vá em frente.

Quarta Estratégia (Empatia/Regra de Ouro): O que estou prestes a fazer? Visualize a ação/comportamento em sua mente. Qual é o alvo de minha ação em termos de pessoa, lugar ou coisa? Como esta ação/comportamento afetará tanto você quanto o alvo de sua ação? Você pode determinar isto fundindo o que está prestes a fazer, o alvo de sua ação e a si mesmo. Esta é uma boa coisa a fazer? Caso seja, faça-a. Caso contrário, não faça.

Mensagem do Dia - Despertar Primário


Hoje falaremos sobre o despertar espiritual e o primeiro passo de Narcóticos Anônimos (NA) em geral.

Antes do despertar espiritual, que logo explicaremos o significado e suas causas, do reconhecimento de que tínhamos problemas com drogas e da decisão de abandoná-las, algumas características eram comuns a todos nós.

Estávamos submersos em um processo denominado negação em que buscávamos provar para nós mesmos e para os outros que não éramos dependentes químicos. Racionalizamos no sentido de que conseguíamos ficar algum tempo sem usar drogas, que o modelo social de dependente estava muito distante de nós. Justificamos que nossos problemas eram exteriores e caso mudássemos de amigos, emprego, escola, universidade, cidade, deixássemos de morar com nossa família, entre outras coisas, nossas  vidas iriam melhorar. Tentamos somente beber e/ou usar drogas mais fracas, usar com pessoas diferentes, somente em algumas situações, ficar abstinente por um tempo para depois controlar, mas nada deu certo.

Por outro lado, em razão do nosso medo de rejeição, assim como da nossa insana preocupação em agradar os outros, criamos uma personalidade para apresentar às pessoas quando não estivéssemos isolados. Vestimos máscaras com medo de que as pessoas pudessem descobrir que usávamos drogas, o que fazíamos para consegui-las, que éramos fracassados porque nossos sonhos tinham a droga como limite, que éramos egoístas, entre outros, enfim, a verdade sobre nós e nossa doença.

Entretanto, chegamos em um momento que o descontrole e/ou sofrimento são tão grandes que não conseguimos mais disfarçar. Mesmo que alguns AINDA não tenham perdido bens materiais, amigos, família, emprego, vida social, entre outras coisas, encontraram o fundo de poço espiritual e emocional. É aqui que começamos a reconhecer nossa doença e pedir ajuda.

Descobrimos que não podemos controlar o consumo de quaisquer substâncias psicoativas (SPA), mesmo o álcool. Que ela nos afeta física (compulsão, descontrole, agir sem considerar as conseqüências), mental (obsessão/pensamentos fixos), espiritual (egocentrismo e vazio espiritual), social (isolamento) e emocionalmente (inabilidades). Que é progressiva (em razão da tolerância de nosso organismo que aumenta com o consumo), incurável (em razão de nossas memórias, principalmente aquela que experimenta uma carga sem precedentes de dopamina oferecendo prazer e euforia) e fatal caso não seja interrompida. Começamos a refletir como e quais áreas de nossas vidas foram afetadas.

Com a abstinência, descobrimos, também, que temos inabilidades mesmo sem drogas. Nossos pensamentos costumam seguir um padrão obsessivo com pensamentos automáticos, erros cognitivos, esquemas mal adaptativos, influenciando nossas emoções com as quais não conseguimos lidar e comportamentos que não conseguimos controlar. Somos transtornados.

Todavia, admitindo nossa impotência, não somente em relação às drogas, mas principalmente em relação a nós mesmos, como funcionamos, abrimos caminho para a mudança. Este é considerado o paradoxo do primeiro passo. Admitimos a derrota para vencer. Não precisamos mais entrar no ringue. Não precisamos mais lutar para provar que podemos controlar e/ou não somos adictos.

Este processo chama-se rendição. Ele inicia-se com a admissão da impotência e descontrole, passa pelo abandono de reservas ou restrições em relação ao programa de 12 passos e termina, tratando-se do passo um, com a aceitação de que a recuperação é a solução para uma nova maneira de viver.

O determinismo, tanto genético quanto psíquico e ambiental, pode nos levar a acreditar que não há nada que possamos fazer. Aquilo que está em nosso DNA, assim como as experiências que vivemos durante nossa formação já condicionaram nosso comportamento e, portanto, não temos outra escolha. Mas, na verdade, somos autodeterminados, nós decidimos o que fazer.

É certo que, em razão de nossas expressivas dificuldades, não conseguiremos sozinhos, mas é empiricamente possível com a ajuda da programação, de profissionais, da autodisciplina e determinação, entre outros.

O Primeiro Passo é o passo mais importante porque decidimos viver, assim como é um passo de muita ação. Segundo um ditado chinês, “uma jornada de mil quilômetros começa com o primeiro passo”. É preciso muita iniciativa para dá-lo. O despertar primário pode ser considerado um estimulante, incentivador, a condição fundamental. Mas é preciso ter atitude.

sábado, 11 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Ouvindo com Empatia


A nossa reflexão de hoje é sobre a importância de ouvirmos atentamente e com empatia.

Durante nossa adicção ativa, a impaciência para ouvir outras pessoas é, geralmente, uma característica muito comum.

Entretanto, a mesma inabilidade pode ser encontrada em pessoas que, mesmo sem usar drogas, desenvolveram uma personalidade parecida, assim como aqueles que não contam com uma espiritualidade bem desenvolvida.

O educador Rubem Alves, em um de seus textos com o título “Escutatória”, escreveu que sempre via cursos de oratória anunciados. Nunca viu anunciado um curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensou em oferecer um curso de escutatória, mas chegou à conclusão de que ninguém iria se matricular.

Nós nos comunicamos através de quatro formas, principalmente: lendo, escrevendo, falando e ouvindo. Durante muitos anos, aprendemos a ler, escrever e falar, entretanto, dedicamos muito pouco, senão nenhum, para aprender a ouvir.

Geralmente, quando as pessoas estão falando, costumamos interrompê-las. Esta atitude, mesmo que inconscientemente, envia algumas mensagens para o outro como, por exemplo, não estou prestando atenção naquilo que está me dizendo, já que a mente está ocupada com a elaboração do que irei falar, não estou valorizando sua opinião, assim como sua opinião não pode ser mais importante que a minha, entre outros.

Na verdade, este tipo de comportamento expressa nossa necessidade de ser compreendido antes de compreender.

Podemos subdividir nossa escuta em quatro níveis: quando ignoramos o que a outra pessoa está dizendo, fingindo, na maioria das vezes, que estamos ouvindo; quando escutamos seletivamente, ou seja, apenas determinadas partes da conversa; quando escutamos concentradamente, ou seja, prestamos atenção nas palavras que estão sendo ditas; e empaticamente, quando temos a intenção de compreender. A escuta empática faz com que nos coloquemos no lugar da outra pessoa. Vemos e compreendemos o mundo como ela, sentimos o mesmo que ela.

Em Narcóticos Anônimos (NA), aprendemos que as partilhas possuem um valor terapêutico muito expressivo porque além de funcionar como uma “válvula de escape”, aprendemos com as experiências dos outros e eles com as nossas. Mas para tanto, é fundamental ouvirmos empaticamente. Assim, deixar de ouvir, internamente, nossos pensamentos e opiniões.

Por outro lado, considerando a primeira função das partilhas, o campo da motivação humana descobriu que necessidades satisfeitas não motivam. Depois das necessidades físicas, as necessidades humanas são psicológicas como, por exemplo, ser compreendido, se afirmar, receber incentivo, ser amado, entre outros. Quando ouvimos empaticamente as pessoas, satisfazemos esta necessidade psicológica. Além de que quando as pessoas se sentem confiantes para se abrir, elas conseguem, durante este processo, encontrar as soluções por si mesmas. Segundo Covey (2010), é como se estivessem descascando uma cebola até chegar ao centro.

Segundo a literatura de NA, “a empatia pode alcançar e tocar o espírito de outro adicto sem falar uma simples palavra”. Então, só por hoje, vamos nos esforçar para ouvir mais atentamente praticando o princípio da empatia.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Contato Consciente com Deus


Nosso tema de hoje é sobre o contato consciente com o Poder Superior.

Durante nossa ativa, desenvolvemos uma dependência muito grande em relação às drogas e à adicção de forma geral, uma força negativa, destrutiva e muito maior que nós. Em razão da obsessão e compulsão por drogas, respectivamente do ponto de vista mental e físico e, por conseqüência, do egocentrismo e valores que desenvolvemos a partir dele como desonestidade, manipulação, mentiras, egoísmo, entre outros, chegamos a Narcóticos Anônimos (NA) com o que podemos chamar de completo “vazio espiritual”.

Em razão desta ausência de espiritualidade e fé, não conseguíamos confiar em qualquer Poder Superior, tínhamos medo do futuro, uma característica da auto-obsessão, principalmente porque nossas experiências passadas eram a expressão do fracasso. Nossos sonhos tinham um limite intransponível: as drogas.

Não era muito comum fazermos orações ou falar com Deus, exceto em situações de risco ou quando sentíamos muita dor. Por exemplo, na iminência de ser descoberto e preso pela polícia ou em um estado bastante depressivo pós-uso.

Durante o processo de negação, é comum acreditarmos que nossas necessidades são, por exemplo, financeiras, mudança de bairro ou cidade, outro emprego, amigos, distância da família, entre outras, porque assim justificamos. Todavia, não demora muito para descobrirmos que nossa verdadeira necessidade é de orientação espiritual.

Estávamos notadamente falidos do ponto de vista espiritual. Nossa vida fazia quase nenhum sentido.

Com a rendição que se iniciou no 1º passo, admitimos nossa impotência em relação às drogas e à adicção de forma geral – que nossos pensamentos eram automáticos e destrutivos, não conseguíamos lidar com nossos sentimentos e, por conseqüência, nossos comportamentos eram desastrosos  – , abandonamos as reservas e aceitamos a recuperação como solução para nossas vidas, assim como que agora precisamos assumir as responsabilidades por fazer diferente. Entretanto, continuamos impotentes. Mas o programa nos diz que um Poder maior do que nós e que a nossa doença pode devolver-nos à sanidade. Então começamos a questionar qual a vontade deste Poder em relação a nós.

A vontade deste Poder é uma vida baseada nos princípios espirituais. Cada passo possui um conjunto de princípios e é através daquele que desenvolvemos, progressivamente, o tão almejado despertar espiritual, uma nova consciência.

Este Poder Superior, aos poucos, vai libertando-nos da obsessão, da compulsão, dos defeitos ou desvios de comportamento na medida em que nos dá coragem para reconhecê-los e orientação para mudá-los. Não lutamos mais contra eles e, assim, não são mais alimentados.

Entretanto, esta orientação é conquistada com um relacionamento de mão dupla. Como todo relacionamento, deve ser baseado na confiança, no cumprimento de compromissos pré-estabelecidos, em pedidos que não se resumem a interesses egoístas, praticando, sobretudo, a honestidade.

É de mão dupla porque falamos com Ele através da oração e “escutamos” através da meditação. Escutar, neste sentido, é restaurar e/ou interiorizar os princípios de forma a conseguir reestruturar os pensamentos automáticos e mal adaptativos, controlar as emoções, entre outros.

Ainda assim, haverá momentos em que teremos algum desejo e/ou dúvida e submetê-lo aos princípios pode não ser suficiente. Por exemplo, recebemos uma proposta de emprego e não sabemos se aceitamos ou não. Neste caso, a intuição é a expressão da orientação divina. Em 2005, quando Steve Jobs já doente discursou para os alunos de Stanford, ele disse que temos de ter coragem de seguir nosso coração e intuição. Pessoas com espiritualidade desenvolvida certamente estarão tomando a decisão mais acertada.

Por fim, não podemos esquecer que o Poder Superior faz a parte dele. Simplesmente pedir orientação não resolve. É preciso iniciativa. Pedir um emprego para Deus sem ao menos um currículo é uma grande ilusão.
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