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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Livrar a Cara ou Salvar a Pele


A discussão de hoje é sobre nossa insistência insana e improdutiva em tentar esconder nossos defeitos.

Segundo a Ética da Personalidade, em oposição à Ética do Caráter, o sucesso e felicidade dependem muito mais de técnicas de relações humanas e sociais do que qualquer reforma íntima. É o mesmo que dizer que nossa imagem é o mais importante. Sendo assim, devemos explorar nossas qualidades e maquiar nossos defeitos.

Por outro lado, é comum por parte de dependentes químicos, principalmente na ativa, o medo de inferioridade e rejeição. Influenciados por suas experiências, motivações e sentimentos temem que se as pessoas descobrissem a verdade sobre eles, mesmo em relação ao passado, provavelmente se afastariam. Este tipo de preocupação é fortemente responsável pelo isolamento.

Por trás de tudo isto podemos destacar que há o que aprendemos como código mental fixo ou permanente. Por considerar que seu caráter está determinado e, assim, é imutável, a exposição de seus defeitos equivale à confissão de seus fracassos porque não conseguiria se livrar deles. Entretanto, para alguém com este tipo de código mental, não se discute esta possibilidade tendo em vista que precisa de afirmações cotidianas de que aquilo que ele é o faz melhor que as outras pessoas.

Por conseqüência, o dependente tende a utilizar-se de máscaras criando assim uma personalidade que tem por objetivo tanto agradar as pessoas como, principalmente, protegê-lo.

Quando conhecemos as experiências de outros companheiros, descobrimos por que estes defeitos têm poder sobre nós enquanto tentamos mantê-los escondidos de todos.

Lutar contra estes defeitos fazem parte do processo de negação. Se lembrarmos quando tentávamos de várias maneiras controlar nosso uso de álcool e outras drogas e não conseguíamos, isto nos deixava péssimos e alimentava bastante nossa adicção. Da mesma maneira, quando tentamos provar a nós mesmos que não temos algum defeito, as situações nos provam do contrário e nos colocam na mesma situação constrangedora e destrutiva.

Gostamos de lembrar o exemplo citado pelo psiquiatra Viktor Frankl em seu livro “Em busca de sentido” quando explica a técnica criada por ele denominada logoterapia ou intenção paradoxal. “Caso semelhante foi me contado por um colega (...). Fora o mais grave caso de gagueira que ele tinha visto em muitos anos de profissão. De acordo com sua memória, nunca em sua vida o gago estivera livre de seu problema de fala, com uma única exceção. Esta ocorreu quando ele tinha doze anos, ao andar de bonde sem pagar passagem. Ao ser pego pelo cobrador, pensou que a única maneira de se safar seria conquistar a compaixão dele e tratou de demonstrar que era um pobre menino gago. Mas no momento em que tentou gaguejar, foi incapaz de fazê-lo.”

Sempre utilizamos este trecho quando falamos do processo de negação porque exemplifica claramente os resultados positivos da admissão e aceitação. Precisamos aceitar nossos defeitos.

Em segundo lugar, fica muito claro como lutar contra os defeitos pode nos transformar em uma grande panela de pressão a explodir a qualquer momento.

Por último, a humildade necessária para o reconhecimento de nossos defeitos é condição fundamental para a nossa mudança. Duas questões são fundamentais neste processo de recuperação: começar a desenvolver um novo código mental construtivo no sentido de reconhecer a possibilidade de transformação pessoal e expor nossos defeitos. Se os defeitos eram a razão de nossa vergonha, esta só poderá desaparecer se cumpridas estas duas exigências, porque só assim poderemos ser ajudados.

É natural que não nos sintamos a vontade para expor estes defeitos para todas as pessoas. Mas precisamos fazê-lo a algum companheiro ou profissional de confiança. Dor partilhada é dor diminuída.

Por fim, descobriremos que é impossível para além do curto prazo mantermos máscaras porque nossa imagem tende a refletir nosso caráter. Podemos imaginar que necessitamos livrar nossa cara nos escondendo, mas quando expomos nossos defeitos a alguém de confiança, esta pessoa nos aceita, não nos aponta, nos entende e nos ajuda a melhorar. Descobrimos, então, que ao fazê-lo, na verdade, estamos salvando nossa pele. Segundo a literatura de Narcóticos Anônimos (NA), “estes defeitos crescem no escuro e morrem à luz da exposição”.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mensagem do Dia - Dificuldades nos Relacionamentos


Nosso tema de hoje é sobre as dificuldades que eventualmente encontramos em nossos relacionamentos cotidianos.

Durante nossa adicção ativa, tínhamos muito medo da rejeição. Em razão do nosso consumo de drogas, daquilo que a obsessão por drogas nos levou a fazer como, por exemplo, mentir, manipular, furtar, roubar, entre outros desvios de comportamento, pensávamos que se as pessoas nos conhecessem, imediatamente se afastariam.  Mesmo no caso de outros dependentes em recuperação, acreditávamos que nenhum deles fizera o que fizemos.

As experiências sociais que tínhamos, que geralmente se limitavam a usuários de drogas, traficantes, entre outros, bem como considerando as atitudes que costumávamos ter nos impediam de confiar nas outras pessoas.

Estes fatores nos levaram ao isolamento.

Com a abstinência e a recuperação, naturalmente começamos a nos reaproximar das pessoas. Em alguns relacionamentos como, por exemplo, no trabalho, no grupo, na escola, entre outros lugares, poderemos encontrar algumas dificuldades, alguns conflitos.

A primeira coisa que devemos fazer é um exercício de auto-avaliação, olhar para dentro de nós e procurar qual a parcela que temos em relação à qualidade do relacionamento.

Sabemos que mesmo em recuperação, é comum a criação de modelos perfeitos de nossa parte. Por exemplo, criamos modelos perfeitos de pais, mães, namorados, namoradas, amigos, de nós mesmos, inclusive de relacionamentos. Esses modelos incluem expectativas muito elevadas e irreais que geralmente são responsáveis por algumas de nossas frustrações e intolerâncias. Ressentimentos indicam a dificuldade para perdoar nós mesmos. Além de que pode acontecer que os comportamentos que mais estão nos incomodando nas outras pessoas sejam aqueles que não conseguimos nos livrar.

Feito isto, é fundamental a prática da empatia, que nos coloquemos no lugar dos outros. Nosso egocentrismo geralmente nos impede de preocupar-se com as outras pessoas. Temos a ideia de que os outros vivem em nossa função. Nós somos o centro e o restante, a periferia. Muitas vezes, a pessoa não está em um dia legal em virtude de forças que não possuem quaisquer relações conosco. Precisamos entender isto. Assim como, em outras situações, aceitar que como nós um dia, as pessoas estão trabalhando no sentido de remover seus defeitos.

A partir destas considerações, o que podemos fazer? A literatura de Narcóticos Anônimos (NA) lembra que não nos tornaremos pessoas melhores julgando os erros dos outros. Podemos orar pedindo ajuda ao Poder Superior e principalmente praticar o princípio do amor incondicional. Aplicando a regra de ouro, vamos tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados, independentemente que qualquer coisa. Procuraremos resolver os conflitos que surgirem e não usar um erro ou dificuldade para estereotipar alguém ou definir sua personalidade.

A partir do momento que decidirmos dispensar um tratamento mais amoroso aos outros, é este tipo de tratamento que receberemos. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mensagem do dia - Honestidade


Nossa reflexão de hoje é sobre honestidade.

O que é honestidade? Muitos de nós definiríamos honestidade como a atitude de falar a verdade. Faz sentido, mas além de não mentir para os outros, inclui principalmente não mentir para nós mesmos.

De forma geral, o dependente químico, motivado por um código mental ou paradigma chamado fixo ou permanente, desenvolve um tipo de personalidade em que, por acreditarmos que nossas características são imutáveis, necessitamos provar a nós mesmos que temos valor. Por exemplo, precisamos provar a nós mesmos que nossa inteligência é suficiente. Que temos algum talento. Que somos “legais”. Que não temos “defeitos”. Que não temos problemas com álcool e outras drogas. Notadamente, por trás deste código também está a ideia de que o mundo é uma competição e que nós somos melhores que os outros de acordo com as referências sociais. Precisamos provar isto.

Sendo assim, criamos uma personalidade de camaleão completamente adaptativa, pois nosso senso de valor dependia do atendimento às expectativas dos outros. Mesmo antes do primeiro contato com drogas, é comum dependentes tomarem a decisão de fazer uso de substâncias psicoativas (PSA) acreditando ser condição fundamental para sua aceitação no grupo. Muitos de nós tivemos o comportamento, em grande medida, determinado pelo meio em que vivemos.

Como conseqüência, era natural nosso isolamento tendo em vista que qualquer aproximação poderia ser uma ameaça a nossa superioridade, à criação que havíamos feito de nós mesmos. Entretanto, na verdade sabíamos que tínhamos problemas, por isso os relacionamentos representavam um grande perigo e reconhecer estes defeitos seria uma dor muito grande.

Com isso, negamos nossos problemas com drogas, nossos pensamentos destrutivos, nossas inabilidades emocionais e nossos comportamentos inadequados. Racionalizamos que o tempo em que ficávamos sem drogas era indicador de que não éramos dependentes, que tínhamos o controle, assim como que o modelo social de dependente estava muito longe do nosso comportamento, entre outras situações. Justificávamos que a responsabilidade por usarmos droga era da família, dos amigos, do trabalho, dos lugares, da localização geográfica, entre outros.

Era confortável não ter que falar a verdade, mas, por muitas vezes, as conseqüências foram gravíssimas. Além disso, muitos de nós tínhamos uma consciência que ainda nos chamavam atenção quando tínhamos determinados comportamentos. Nossa personalidade era completamente diferente de nosso caráter.

Segundo Narcóticos Anônimos (NA), a honestidade é um princípio espiritual fundamental para a recuperação e é o oposto da negação.

Começamos a ser honestos quando admitimos que somos impotentes não somente em relação às drogas, mas em relação a nós mesmos e que nossas vidas haviam se tornado incontroláveis.

Pode ser doloroso reconhecer onde estamos, mas diferentemente do que pensávamos, nossas características não são permanentes, podemos modificá-las, mas para tanto é necessário honestidade e humildade. E a condição para ser honesto com os outros, é começar falando a verdade para nós mesmos.
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